quarta-feira, 20 de julho de 2011

Amor-feto


O que sobrou de nós?
Apenas as palavras que te escrevo agora
E as lembranças que retiramos de dentro de nós
Mas que na história do tempo, na história do nosso tempo não podem ser apagadas.
Talvez ainda esteja aqui, dentro de mim, e só em mim,
Inconsciente,
Uma adormecida ou mórbida saudade,
Que me faz recorrer à poesia
Como meio de expurgar de mim
Esse sentimento todo que precisei abortar
Como a mãe que tira o filho contra a própria vontade:
Nunca poderá voltar atrás,
Mas isso não lhe impede que o relembre vez ou outra,
Que sinta falta daquele ser sem rosto que ela impediu de crescer, de viver ao seu lado e se fortalecer.
Foi assim com o que senti,
Crescia forte e saudável dentro de mim,
Mas só em mim...
Um filho órfão,
Um filho indesejado,
Que precisou ser retirado...
O que restou de nós?
Eu te pergunto...
Apenas as lembranças de um amor-feto abortado.

domingo, 17 de julho de 2011

Os olhos de Isaura


É incrível como o tempo apaga alguns detalhes de nossas lembranças. O rosto de alguém querido que você não vê há muito tempo, a voz, as feições... Embora lembre da pessoa, esses pequenos detalhes vão sumindo com o tempo.

Minha avó, por exemplo, faleceu quando eu tinha 8 anos. Meu carinho por ela nunca mudou, nem a saudade que sinto, mas admitido que a cada ano a imagem do seu rosto vai ficando menos nítida nos vão da minha memória.

Outro dia, porém, tive novamente a impressão de estar diante dela, de me ver outra vez em seus olhos. Entrei num restaurante para almoçar, meio dia, mal humor, cansaço, fome, estresse, a última coisa em que eu estaria pensando naquele momento seria na minha avó .
Mas eis que me viro de lado e vejo aquela mulher de cabelos escuros ondulados, cobertos com um lenço, as marcas da idade bem expressas em seu rosto, as sobrancelhas largas, e os olhos pequenos e apertados. Enquanto eu a observava ela rapidamente olhou pra mim, parecia que eu estava ali diante da minha avó. Suas feições que andaram tão apagadas nos últimos anos pareciam agora tão vívidas.

Por um instante tive vontade de ir até lá e falar com aquela senhora, mas eu não tinha direito de fazer isso, embora ela me fosse familiar, em verdade, eu nunca a tinha visto antes.
Deixei então que ela se fosse.

Já nem sei se a semelhança era mesmo tão forte, mas o episódio serviu para reacender muita coisa que andava adormecida em mim. Lembrei-me da minha casa, da minha infância com minha mãe e meus avós, e agora as feições de Dona Isaura estão em mim mais vívidas do que nunca!

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Sepultamento


Hoje sepultei um grande amigo
O meu desejo mais ardente
E mais antigo
Enterrei um grande amor
Um corpo enterrado vivo
E que mesmo sob a terra
E a umidade
Insiste em resistir
E ainda invade
O pouco de sensatez que em mim existe!


sexta-feira, 8 de julho de 2011

Proibido pegar!

Muitas pessoas levam nome de antipáticas, antissociais e arrogantes, por não gostarem de um certo hábito comum entre muitos.
A questão é a seguinte, tem gente que só fala com você se for te tocando. Não sei se o nome disso é arrogância, mau humor, frescura, chame do que quiser, mas eu não gosto de gente que fala pegando em mim. Pra começo de conversa, eu não gosto que gente que eu não conheço pegue em mim, não gosto e isso é um direito meu. Acho que o ato de tocar em outra pessoa ficou para amigos, familiares, namorados e coisas desse gênero. Agora, uma criatura que eu nunca vi na vida vem pedir uma informação, ou só falar pra encher o saco mesmo, aí, você não diz nem oi e o infeliz já tá querendo segurar sua mão, te abraçar. Eu fico tensa com isso.
E não é por nojo das pessoas, não é por me achar melhor que ninguém, é simplesmente por achar que pra pegar tem que ter um mínimo de intimidade ou de interesse correspondido. Um aperto de mão por educação até que vai, mas tem gente que exagera.
Isso sem falar nuns infelizes que falam batendo. Cada palavra uma cutucada. Pra se ter uma ideia, cutucada me irrita até no Facebook. Pra esses não tem salvação. No primeiro caso eu fico incomodada, mas tento demonstrar de forma mais discreta, agora, quando parte pra cutucar ou bater, vira apelação!
Diante disso, estou propondo uma campanha para todos que se identificam com essa minha peculiaridade (ou não) para aderirmos ao movimento “proibido pegar”; pra ver se assim esse povo sem noção que fica querendo forçar intimidade a todo custo se manca. O slogan da campanha será: “não me toque, se toca”! 

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Sem órbita


Sinto a tristeza dos outros,
Sinto a tristeza do mundo...
Vejo a solidão e me sinto pequeno.
Um pequeno pedaço à parte,
Um planeta sem órbita
Vagando sozinho no espaço.

Sinto a tristeza de tudo,
Vejo-a em sorrisos que estampam rostos tristes
Sinto-a nas músicas que ouço ao longe e não sei de onde vêm
Me ponho dentro das dores dos outros
E me sinto triste também.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

A mulher que habita meus sonhos

Os olhos.
O medo.
O meu desejo.
O toque, o silêncio e outra vez o medo.

A linda mulher que habita em meus sonhos
De lábios macios que nunca me tocaram
E que, porém, em meus delírios, senti o gosto várias vezes

Tua face.
Meu olhar prisioneiro dos teus gestos
Rendido por um véu de encantamento e ilusão.
Que te converte mulher, em um misto de doçura e perfeição.
                                                                                            
Linda mulher
Desfila pelas ruas, displicente, tua beleza
E eu aqui parado, a contemplar-te,
Perdido em teus olhos de incerteza. 

domingo, 3 de julho de 2011

Experimento a solidão


Outra vez experimento a solidão
O estado simples de não ser e não estar com mais ninguém
O simples estado de estar só.

Em meus olhos e em minha boca
Esse sabor e esse cheiro
De nostalgia.

Em meus dedos e em meus braços
A ausência e os corpos
Que não me fazem companhia.

E em mim ainda ardia,
Por torrentes de esperanças
Advindas de devaneios infindáveis,
Um infame desejo.

Mas em mim só havia
Restos de ilusões e algumas crenças
Pedaços de emoções lamentáveis
De tudo o que eu quero e nunca almejo.

Experimento, Outra vez, a solidão.
O estado de não ter e de não ser de mais ninguém.
O estado simples de estar só.


Em meus olhos e em minha boca
Não há sabor, vigor ou cheiro
Só velhos vestígios de agonia.

Em meus dedos e em meus braços
A ausência de um corpo
Que já não quer e já não faz mais companhia.